Entrevista: Ricardo Gnecco Falco sobre As Aventuras dos Quimionautas no Planeta Terra

Mais enriquecedor do que criar histórias é descobrir histórias e mais prazeroso do que escrever um livro é encontrar um livro que te inspire e represente tudo aquilo que você quer seguir.

Há alguns dias atrás, pesquisando aleatoriamente no Facebook grupos de oncologia pediátrica, deparei-me com a página As Aventuras dos Quimionautas no Planeta Terra. Curiosa a respeito do que poderia ser, visitei a página e pude ver várias fotos repletas de amor e de carinho com o próximo. Como esta:

Meu faro de jornalista não me deixou dormir enquanto não enviasse uma mensagem a fim de obter mais informações sobre o projeto. Após uma semana, aproximadamente, recebi uma resposta do produtor editorial Ricardo Gnecco Falco, 39 anos, que, super solícito, me pediu para enviar um e-mail com as perguntas que tinha interesse em fazer.

E eu abusei um pouco, confesso. Encaminhei logo 10 perguntas e, por meio delas, consegui compreender este projeto magnífico que me fez compartilhar aqui com vocês a entrevista.

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De acordo com Falco, o livro As Aventuras dos Quimionautas no Planeta Terra foi inspirado na história da autora Gizella Werneck Doylle que durante a gravidez de seu filho descobriu um câncer. Durante o tratamento, decidiu escrever As Aventuras de modo que levasse às crianças que enfrentam o doloroso tratamento de câncer, coragem e fé, mostrando, através de uma fábula de super heróis, lições importantes sobre a valorização da vida e a importância da fé e do amor no tratamento de quimioterapia nas crianças.

“Uma leitura que tem a proposta de funcionar como um bálsamo para amenizar a dureza de receber um diagnóstico de câncer e o tratamento quimioterápico, em uma fase da vida em que só a alegria e a magia de viver deveriam reinar” (Falco, 2015)

Gigi, como Ricardo chama a autora Gizella, foi sua amiga durante 20 anos, desde os tempos de faculdade. Quando internada no hospital para tratar o câncer, Gigi pediu para que Ricardo editasse e publicasse sua história, transformando-a em um livro a ser destinado para todas as crianças do mundo. Como ele mesmo afirma, Gigi tinha um coração do tamanho dos seus sonhos: ENORME!

E, quando estamos diante de pessoas com um brilho tão especial (e tão raro) como o que a Gigi irradiava, as dificuldades e obstáculos que se apresentam servem apenas para aumentar ainda mais o impulso rumo ao destino final. A Gigi era o exemplo maior. E não apenas meu, mas o de todos que passavam lá pelo seu “escritório”, na varanda do hospital em que estava internada, ou mesmo em seu quarto, o famoso (e saudoso) “Quarto do Amor”. E, vamos combinar, que somente alguém muito especial consegue fazer com que as pessoas sintam saudades de um quarto de hospital… (Falco, 2015)

Gigi em seu quarto de hospital. Foto de: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

Gigi em seu quarto de hospital. Foto de: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

Falco diz que a própria Gigi e sua história de vida e superação o motivaram a seguir em frente. Sua luta diária contra a doença, contra o baixo-astral, contra o derrotismo, contra a desistência e, principalmente, a favor da vida fizeram com que ele se inspirasse. “Certa vez, ela escreveu para mim isso: ‘Eu preciso do lúdico, eu sou meio criança. Se não tiver fantasia na minha vida, acho que morro, Preciso de amigos, aventuras, emoção, amor etc… Acho que tenho que usar meus dons para ajudar os outros e me fazer feliz!!!’” 

Abaixo um pouco mais da entrevista:

5-Você contou/conta com o apoio de alguém?

Sim. Todo este livro contou com o apoio de dezenas, centenas, milhares de pessoas. Criamos e lançamos uma campanha para arrecadação de fundos na internet, para a produção e distribuição da primeira tiragem deste sonho que, ao invés de sair do papel, para lá deveria ir. Contamos com a ajuda de amigos, conhecidos e, principalmente, desconhecidos que, contagiados pelo brilho que este lindo projeto irradiava, nos permitiu não somente alcançar, mas também ultrapassar a meta inicialmente fixada. O sonho era conseguirmos fazer, pelo menos, mil exemplares do livro para distribuí-los pelo Rio de Janeiro. Com a ajuda de todos, conseguimos produzir e distribuir três vezes mais, atingindo diversas outras crianças e instituições, em diversos outros Estados do Brasil. Além das crianças do Rio, foram enviados livros para instituições de todas as regiões do país. Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. (Falco, 2015)

6- Como foi recebido pelas crianças e pelos pais?

Durante uma visita ao INCA. Disponível em: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

Durante uma visita ao INCA. Disponível em: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

Esta é uma história à parte. Até começarmos a distribuir os exemplares (aqui no Rio de Janeiro os amigos da Gigi se uniram e formaram um grupo de contação de história que realiza uma apresentação teatral da história do livro, com atores voluntários e muita música e alegria, para as crianças nas instituições visitadas, antes de distribuir os livros e os “corações solidários”, outro projeto que a Gigi tinha e que foi/está sendo continuado), não imaginávamos o tamanho do efeito causado pelo verdadeiro Amor. É muito lindo, inspirador e rico em aprendizado esta experiência de troca. Sim, de troca. Pois o Amor é uma via de mão dupla e, por mais que pensemos que somos nós a levar o amor e a alegria para as crianças internadas, na verdade, nós é que saímos de lá renovados. Transformados. Sim, existem cenas tristes, reflexos de dor e sofrimento (crianças com membros amputados por causa da doença, fracos por causa da forte medicação, limitações de interação etc.), mas conseguir o sorriso, a atenção, o brilhinho nos olhos destes pequeninos guerreiros e suas mamães e papais, mesmo que por um pequeno momento (mágico!), é algo que eu ainda não consegui descrever com palavras. Só sentir. E é um sentimento tão bom, tão transformador, tão puro e especial, que traz um inesperado (no começo tínhamos medo) desejo de repetição. De revivê-lo, de experimentá-lo novamente. Ver o quanto as crianças gostam, o quanto as enfermeiras gostam, o quanto os pais e acompanhantes gostam… Tudo isso é muito motivador para nós e nos traz a certeza de estarmos exatamente onde deveríamos estar naqueles momentos. E também a certeza da presença e do sorriso de nossa eterna musa inspiradora e amiga, Gigi. (Falco, 2015)

Você pode fazer sua doação diretamente no site http://www.seulivropronto.com/#!quimionautas/cx2q Foto em: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

7- Qual a mensagem principal do livro?

As Aventuras dos Quimionautas no Planeta Terra trata-se de uma fábula de super-heróis, repleta de fantasia e encantamento, com algumas lições importantes sobre a valorização da vida e a importância da fé e do amor no tratamento de quimioterapia em crianças. Os Quimionautas são os super-heróis carequinhas do Planeta Kura. Eles vêm à Terra, em sua nave KurAtiva, para trazer as poções mágicas que fabricam e os ensinamentos de amor e superação para as crianças. (Falco, 2015)

8- Conte algumas histórias que te inspiraram.

 Acredito que o sincero desejo de espalhar o amor e o bem pelo mundo tenha sido o que inspirou a Gigi a escrever esta linda história. E o estopim muito provavelmente tenha sido a maternidade. Descobrir-se grávida e, na sequência, portadora de uma doença terrível, deve tê-la tirado da — tão conhecida por todos nós — ‘zona de conforto’ e a feito correr rumo a concretização de seus maiores sonhos. E a levar a esperança a todos os que sofrem. (Falco, 2015)

9- De agora em diante, como você vê sua vida?

Vejo a vida hoje como o maior dom recebido por cada um de nós. A valorização da vida faz parte do processo evolutivo. Quanto mais a valorizamos, mais “evoluídos” nos tornamos. A gratidão pela vida (e por tudo – bom E ruim – que nos acontece) nos faz evoluir. Desejar o bem, sem olhar a quem, seja talvez o nível máximo que possamos atingir por aqui. Aprender a enxergar as coisas ruins (os sofrimentos) como oportunidades de aprendizado, crescimento e transformação; também. Minha vida, e minha visão da vida, foram (e continuam sendo) profundamente transformadas pelas experiências vivenciadas naquele inesquecível “Quarto do Amor” e no convívio com sua maior protagonista, durante o intenso período que me foi permitido, e que hoje se faz presente em cada um daqueles sorrisos vislumbrados nos rostinhos das crianças, após receberem um exemplar desta verdadeira “poção mágica”, deixada como legado e missão para seus amigos.   (Falco, 2015)

Ricardo Gnecco Falco durante a distribuição e apresentação teatral da história do livro na festa de Páscoa da Casa de Apoio à Criança com Câncer de Santa Teresa (CACCST). Mar/2015. Foto em: http://www.facebook.com/OsQuimionautas

Ricardo Gnecco Falco durante a distribuição e apresentação teatral da história do livro na festa de Páscoa da Casa de Apoio à Criança com Câncer de Santa Teresa (CACCST). Mar/2015.

10- O que te fez mudar seu ponto de vista sobre algo, te fez repensar o projeto ou te estimulou a continuar?

Pouco depois de descobrir que estava com câncer, a Gigi me ligou. Estava muito aflita e temerosa pelo que viria à frente. Internações, operações, prognósticos médicos, ciclos de quimioterapia, transfusões de sangue… Estava com muito medo e me procurou devido a um detalhe: eu havia sobrevivido a um câncer. Ela sabia que, cerca de dez anos atrás, era eu a estar sentindo, provavelmente, as mesmas coisas que ela sentia naquele momento. E mais… Ela sabia que eu estava curado! É claro que se tratavam de tipos de câncer diferentes; ela estava com um sarcoma, enquanto eu havia tido uma LMA (Leucemia Mielóide Aguda). O câncer dela era muscular. O meu havia sido no sangue, na fábrica do sangue (medula óssea). E, já naquele momento, senti que uma Força Maior (eu chamo de Deus) nos unia. E nos uniria ainda mais. Ela sabia que eu havia ficado internado por 40 dias direto em um hospital, até me ser permitido dar continuidade ao tratamento em casa e para lá voltar somente em ciclos futuros de quimioterapia. Por isso, desde que ela deu entrada naquela que se tornaria a sua última internação (e que acabaria durando mais de nove meses), senti em meu coração o desejo de me fazer presente lá, ao lado dela, para lhe dar força e passar a segurança que, naqueles primeiros momentos de uma longa internação, se fazia necessário. As reações aos medicamentos, procedimentos médicos de rotina e toda uma série de eventos muito similares aos que eu havia passado eram então amenizados pelas histórias que eu contava do tempo em que era eu a estar ali sobre a maca. Tínhamos um acordo. Hoje (naqueles dias) era eu a estar ali ao lado dela, repassando as minhas experiências e a ajudando a passar por tudo aquilo; da mesma forma que havia sido ajudado por diversos amigos e minha família, sempre ao meu lado durante minhas internações. Amanhã (futuramente) seria a vez dela. Quando estivesse curada, ela iria visitar e repassar para alguém que estivesse sobre a maca as experiências dela, os aprendizados que iria obter durante seu tratamento. Claro que com o avançar dos dias, e depois dos meses, era ela quem passava tais ensinamentos para mim. E não apenas para mim (cujos 40 dias internado já eram “fichinha” frente ao tempo que teimava em aumentar, como o inchaço em sua perna). Eu só não sabia, ainda, que ela iria fazer tudo isso, e muito mais(!!!), na forma de livro… (Falco, 2015)

Para mais informações a respeito do projeto, e para entrar em contato, acesse:

https://www.facebook.com/OsQuimionautas

https://www.facebook.com/PrimeiroOlhar.Gigi

http://www.seulivropronto.com/#!quimionautas/cx2q

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3 thoughts on “Entrevista: Ricardo Gnecco Falco sobre As Aventuras dos Quimionautas no Planeta Terra

  1. Parabéns pela reportagem! Tenho mto orgulho em fazer parte do grupo do “quimionautas”! É um privilégio ter a eterna presença da Gigi em nossas vidas! Como tão bem colocou o Ricardo, tds nós sentimos a cada dia que estamos sendo “transformados” em pessoas melhores!…Seguiremos com o projeto da Gigi com aquela sensação de missão cumprida!…Obrigada, Licia.

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